sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Blocos Afros: ação social e militância no carnaval da Bahia

Militantes históricos do movimento negro na Bahia divulgam realizações de inclusão social

Um encontro entre as principais lideranças dos blocos afros de Salvador foi realizado nesta quinta-feira (29) no Baobá Café Social. O bate-papo intitulado “Somos mais que Carnavais”, teve o objetivo de divulgar para público as intervenções sociais promovidas pelos blocos nas comunidades onde estão sediados. Na mesa, os diretores do Cortejo Afro, Alberto Pitta, do Olodum, João Jorge, e do grupo “Os Negões”, Valmir França, falaram sobre suas trajetórias e sobre os avanços obtidos pelos afrodescendentes após a politização dos blocos de origem negra.

Fundado em 1982, o bloco “Os Negões” foi criado por jovens negros que ansiavam por sair no Carnaval de Salvador. Na sua primeira participação, o grupo contou com 72 componentes e homenageou o músico e compositor Batatinha. De lá para cá, o bloco ganhou dimensões maiores, tornando-se cada vez mais consciente do seu papel na sociedade. “Nos últimos cinco anos estabelecemos uma ligação mais forte com música engajada, que combate o racismo e a discriminação”, afirmou Walmir França, um dos fundadores do grupo.

Já o grupo Cortejo Afro, fundado em 1990 pelo artista plástico Alberto Pitta, nasceu com a proposta modernizadora em termos de som, estética e postura mais crítica. Após se firmar como um dos blocos afro mais importantes de Salvador, o Cortejo voltou-se para a área social, oferecendo cursos gratuitos para jovens e crianças do Conjunto Pirajá I. Dentro do Terreiro Ilê Axé Oyá, de mãe Santinha, 40 alunos aprendem dança, música, percussão e capoeira. “Temos ainda um projeto pronto para ensinar tênis e natação para as crianças, estamos agora em busca de patrocínio”, declarou Pitta.

Revolução Olodum
“O Olodum foi uma revolução dentro da revolução”, assim declarou João Jorge ao falar sobre o surgimento de um dos blocos que mais contribuíram com a conscientização do Carnaval da Bahia. Até 1983 os grupos afro não tinham assumido a própria negritude e nem tinham um toque musical que os identificasse. Somente após as iniciativas de renovação do Olodum, outros blocos passaram a se comportar com mais autenticidade. A composição “Faraó”, de 1987, tornou-se um marco da música baiana e alavancou o sucesso do grupo, mas haviam objetivos mais profundos. “Queríamos transformar o carnaval festivo em ações afirmativas dentro das comunidades negras”, afirmou João Jorge.

Hoje, o Grupo Cultural Olodum oferece cursos de percussão à crianças e, em conseqüência, empregos a centenas de jovens músicos. Além disso, desde 2001 o grupo mantém um convênio com a Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), que reserva aos seus componentes quatro bolsas de estudos em cursos de graduação. Afirmando ser um “dinossauro da militância”, João Jorge parafraseou Nelson Mandela: “Luto contra qualquer tipo de supremacia, seja ela branca ou negra”.

Foto: Tom Correia

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Página virtual dos Terreiros de Salvador já pode ser acessada

Após oito meses de pesquisa, secretarias municipais lançam site com dados de 1.159 Terreiros de diversas nações

Uma parceria entre a Secretaria Municipal da Reparação (Semur), de Habitação (Sehab), a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade (Seppir) e a Fundação Palmares, promoveu nesta quarta-feira (28), o lançamento do site do Mapeamento dos Terreiros de Salvador. O evento, transmitido ao vivo pela internet direto da Praça Municipal, encerrou as comemorações do Novembro Negro e contou com a presença de diversos representantes de casas religiosas e autoridades do poder público.

A pesquisa, coordenada pelo historiador Jocélio Teles, durou oito meses e foi realizada pelo Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (Ceao). O objetivo era fazer uma radiografia das casas religiosas em atividade em Salvador e na Ilha de Maré, levantando dados sócio-ambientais e culturais, além de identificar as nações de cada uma delas. Ainda assim, houve alguma resistência. “Cerca de 30 terreiros se recusaram a participar e isso ainda é um reflexo da perseguição sofrida por eles no passado”, afirmou Teles. No total, foram registrados 1.159 Terreiros, a maioria deles localizados em bairros como Plataforma, Cajazeiras, Paripe, Liberdade e Cosme de Farias.

Para o Pai Raimundo, do Centro Umbandista Paz e Justiça, iniciativas como as do mapeamento de Terreiros é a confirmação de um lugar que sempre pertenceu aos adeptos das religiões de matrizes africanas. “Não estamos pedindo nada, merecemos uma posição de destaque na sociedade e agora estamos nos aliando às novas tecnologias”, declarou. Ele ainda se queixou da falta de união entre o povo de santo. “Hoje esta praça deveria estar lotada”, concluiu.

O subsecretário da Semur, Antônio Cosme, acredita que ações originadas pela Prefeitura representam um avanço sem precedentes na história de Salvador. “O Estado sempre perseguiu o Candomblé. Hoje, esse mesmo Estado promove a reparação disponibilizando meios democráticos de acesso à informação”, disse. Para ele, um site com conteúdo afro-religioso pode despertar o interesse das comunidades pela tecnologia, minimizando a exclusão digital na capital baiana.

Para acessar o site do Mapeamento dos Terreiros, clique aqui

Foto: Tom Correia

terça-feira, 27 de novembro de 2007

“Espaço Vovó Conceição” é aberto a todos os segmentos sociais e religiosos

Terreiro Casa Branca oferece cursos gratuitos à comunidade num ambiente familiar e de tolerância religiosa.

Aprender técnicas de corte e costura, bordado, roupas de orixás e panos da costa num ambiente onde a diversidade é bem vinda. Dessa forma pode ser definido o Espaço Vovó Conceição, inaugurado em março deste ano por Dona Cinha, ekede do Terreiro Ilê Axé Iyá Nassô Oká (Casa Branca) , localizado na Avenida Vasco da Gama, em Salvador. Segundo a coordenadora do espaço, a idéia do projeto já tem mais de 20 anos, mas somente pôde ser realizado com o apoio de uma ONG que vem estimulando ações comunitárias em quinze terreiros da capital baiana.

Em abril passado foi iniciada a primeira turma de corte e costura em parceria com a ONG carioca “Koinonia", que cedeu catorze máquinas de costura, tecidos, linhas e acessórios. “O nosso objetivo é preservar a tradição das comunidades dos terreiros e valorizar as iniciativas de capacitação que se transformem em fontes de renda para as pessoas”, declarou Mara Vanessa, coordenadora pedagógica da organização em Salvador. Das quarenta inscritas, apenas quatro não se formaram porque conseguiram emprego.

Para Dona Cinha, o projeto, além de realizar um sonho antigo, também resgata a antiga tradição das comunidades do axé, que sempre produziram suas próprias roupas e adereços dos orixás. “Ultimamente, estamos comprando roupas no Mercado Modelo e no Pelourinho na mão de pessoas que não têm nada a ver com a nossa religião. As roupas de orixás precisam de um tratamento diferenciado, já que a energia de quem faz as roupas é diferente de quem apenas comercializa os produtos”, disse a ekede. Em relação às diferenças sociais e religiosas das alunas, ela é taxativa: “O Candomblé é a religião do amor e do respeito ao próximo, independente de cor, raça, opção sexual, de situação financeira. Estamos abertos a todos os segmentos sociais, sempre com respeito”.

Sem ser adepta de nenhuma religião, a professora Maria José ressalta a transformação das alunas oriundas de famílias preconceituosas em relação ao Candomblé. “Elas chegam aqui desconfiadas, resistentes, esperando encontrar algum tipo de monstro. Mas com o tempo elas percebem a energia da casa, da proposta do espaço e passam a fazer parte da nossa família”. Ela afirmou ainda que no espaço há o costume de ouvir umas às outras para identificar as necessidades e uma maneira de ajudar o outro.

Novas Turmas
Funcionando de segunda a quinta, o Vovó Conceição promove às sextas uma troca de conhecimento entre as alunas: quem sabe fazer algo ensina às colegas. Desde bolsas, bonecas, até a bainha aberta, uma espécie de bordado a mão para panos da costa. Também estão no programa aulas de Direito e Cidadania. A aluna Lícia Santos, pertencente ao Terreiro Oxumaré, freqüentou as aulas de corte e costura e pretende se tornar uma empreendedora. “Quero abrir meu próprio ateliê para produzir roupas e acessórios que aprendi a fazer aqui”, declarou. Entre e fevereiro e março de 2008, uma nova turma deverá ser montada e novos cursos deverão ser oferecidos gratuitamente.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Moradores de antigos quilombos receberão certificado

Sessão Especial na Câmara dos Vereadores de Salvador concede voz às comunidades Quilombolas

Para marcar o início das comemorações da Semana da Consciência Negra, a Câmara Municipal de Salvador realizou na manhã desta segunda-feira (19), uma Sessão Especial com o tema “População Quilombola e a luta pelo direito à terra e à vida”. A iniciativa partiu da vereadora e militante do movimento negro, Olívia Santana, que além de apresentar representantes de doze comunidades remanescentes de quilombos, contou ainda com a participação de diversas autoridades de órgãos regionais do governo federal.

A abertura do evento foi marcada pela apresentação das Ganhadeiras de Itapuã, que mostraram ao público uma das manifestações populares mais famosas de origens africanas: o samba de roda. Para Olívia Santana, a realização da sessão especial nasceu da necessidade de despertar as populações dos grandes centros urbanos para a questão das comunidades quilombolas que vivem afastadas das capitais. “São elas [as comunidades] que mantêm viva a memória daqueles que lutaram contra a escravidão, contra a opressão”, declarou a vereadora.

Quilombos como os de Velame, Ilha de Maré, Sapiranga, Dandá, Mangal e Barro Vermelho, estiveram representados por líderes comunitários, que vieram a Salvador especialmente para participar da sessão. A representante da comunidade localizada em São Francisco do Paraguaçu, no Recôncavo Baiano, Maria das Dores Correia, subiu ao plenário para denunciar as dificuldades enfrentadas pelos moradores da região. “Vim aqui para dizer que não me sinto nada feliz vendo os meus irmãos passando tanta necessidade no meio de tantas terras que não produzem nada”, desabafou.

Certificação
Segundo dados mais recentes divulgados pela Fundação Palmares, existem no Brasil atualmente cerca de 1.113 comunidades identificadas, das quais 915 já possuem certificados atestando a condição de remanescentes de quilombos. Na Bahia, mais de 500 comunidades foram registradas e 209 obtiveram a certificação que protege as áreas de invasões por parte de fazendeiros, os maiores opositores ao reconhecimento das terras. “Hoje estamos trabalhando em cerca de 40 territórios quilombolas na Bahia e apesar de alguns problemas com os grandes proprietários rurais, não vamos deixar as comunidades desamparadas”, assegurou Luiz Fernandes, representante regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

Foto: André Cypriano

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Fred Hamptom Jr. quer estreitar laços entre os movimentos negros

Filho de um dos fundadores dos Panteras Negras visita a Bahia pela primeira vez para estabelecer rede panafricanista

“Enquanto existir fome, AIDS, guerras e pobreza na África, todos os dias serão um 11 de setembro para nós”. Essa foi uma das afirmações de Fred Hamptom Jr. durante conferência nesta terça-feira (13) realizada na Biblioteca Pública do Estado, nos Barris. O ativista norte-americano veio ao Brasil a convite do Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos (CNNC) para falar do legado deixado pelo seu pai, Fred Hamptom, assassinado aos 21 anos pela polícia de Chicago, no dia 4 de dezembro de 1969.

O tema do encontro foi “Tecendo as Redes Panafricanistas” e representantes de diversas entidades atuantes na Bahia estiveram presentes. Michel Chagas, integrante da “Campanha Reaja ou Será Morto! Reaja ou Será Morta!” acusou a política de “genocídio” praticada pelos governantes brasileiros. “Vamos transformar cada morte de negro e negra na periferia num ato político”, anunciou. Ele disse ainda que a campanha também se inspirou nas atuações nos anos 70 do grupo revolucionário negro norte-americano. Para Suzete Lima, secretária-geral do CNNC, a vinda de Hamptom Jr. veio promover um intercâmbio com as organizações envolvidas com o movimento negro no Brasil e na Bahia. “Através da história do pai dele, que ajudou a fundar os Panteras Negras, os jovens que assistiram sua palestra puderam conhecer de perto o que é lutar contra a opressão”, declarou.

Hamptom Jr. envolveu-se desde cedo na luta contra a discriminação racial do seu país e aos 20 anos já era presidente de um movimento defensor dos direitos dos negros nos Estados Unidos. Passou a ser perseguido pelo governo e terminou condenado a nove anos de prisão em “campos de concentração” do estado de Illinois. Foi libertado em 2001 e intensificou as atividades do Comitê Prisioneiros da Consciência (POCC), fundado por ele quando ainda estava na cadeia. “Hoje mantemos contato com líderes de movimentos na Tanzânia e Gana, mas também precisamos nos aproximar mais dos nossos irmãos no Brasil”, afirmou.

Panteras Negras
O partido de ambições revolucionárias foi criado por Huey Newton e Bobby Seale em 1966 na Califórnia, Estados Unidos. Originalmente o grande objetivo dos seus partidários era proteger os guetos negros das ações repressoras e violentas por parte da polícia norte-americana, mas o grupo foi se tornando cada vez mais político. Os Panteras Negras foram aos poucos se consolidando ao reivindicar do governo isenção de impostos para os negros e compensação pelos séculos de exploração pela escravatura. No auge do grupo, cerca de 2 mil ativistas elevaram a auto-estima negra com a expansão do Movimento Black Power. Em meados dos anos 80 o grupo se desfez, mas a herança deixada por líderes como Fred Hamptom permanece espalhada no mundo inteiro até hoje.

Foto: Tom Correia

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Sankofa's traz a África para a Bahia

Único bar de Salvador com temática africana, local oferece programação musical variada na noite do Pelourinho.

Um bar temático onde as pessoas se encontram não apenas para beber e dançar ao som de uma música de qualidade, mas também onde é possível ter contato com a essência da cultura africana. Assim pode ser definido o Sankofa's Bar, inaugurado há seis meses no Centro Histórico de Salvador mas que a partir de novembro começa a oferecer ao público atrações mais diversificadas, incluindo salsa, forró, semba e samba de raiz. Shows com performances de DJ's e de bandas como Válvula D'Scap e Tropicola fazem parte da programação.

O bar surgiu quando o DJ Justine Lloyd, nascido em Gana, percebeu que não existia na Bahia um ambiente onde uma África original pudesse ser encontrada. Junto com mais dois amigos, um nigeriano que mora nos Estados Unidos e outro jamaicano que mora na Inglaterra, ele iniciou o projeto, que pretende ser mais do que um local de entretenimento. A burocracia para conseguir um imóvel no Pelourinho não desestimulou Lloyd. “Levei quatro anos para encontrar esse espaço aqui e só conseguimos abrir o bar depois da ajuda de meus amigos”, declarou.

O Sankofa's tem capacidade para 200 pessoas e funciona de terça a domingo a partir das 22 horas, na Rua Frei Vicente, Pelourinho. Decorado com bandeiras de países africanos e elementos da cultura negra, ali também é possível assistir, gratuitamente, filmes, documentários e novelas produzidas na África. A média de público é de 140 pessoas que pagam de 10 a 12 reais pelo ingresso. A frequência aumenta nos dias de terça, com show de salsa, e sexta, com apresentação de semba [música tradicional angolana, também conhecida como umbigada]. A jornalista Sueide Kintê, 22, é uma das freqüentadoras do bar. Ela afirma que os shows são como uma festa de largo com qualidade no atendimento e segurança. “Aqui encontro as cores e energia da África sem exotismo e sem folclore”, afirma.

Intercâmbio Bahia-África
Além do bar, no qual foram investidos cerca de R$ 200 mil, Justine Lloyd pretende lançar a médio prazo projetos na área social. A idéia é ensinar cultura e idioma africanos a crianças de bairros carentes de Salvador, estabelecendo um intercâmbio entre países africanosa e a Bahia. O músico acredita que seja necessário resgatar a imagem do continente negro junto aos baianos. “Queremos passar conhecimento para os meninos e meninas daqui através das nossas raízes e mostrar para eles que a África não é só guerra, fome e pobreza”, afirmou Lloyd.

Foto: Divulgação

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Literatura: José Carlos Limeira

Em entrevista exclusiva, o escritor fala da sua infância, trajetória literária e da sua poesia de resistência

Com mais de 35 anos de carreira, José Carlos Limeira, 56, é um dos autores nascidos em Salvador de maior destaque dentro da comunidade negra e dos ambientes acadêmicos do Brasil e do Exterior. Estreou com o livro de poesias “Zumbi...dos” em 1971 e em seguida vieram “Lembranças” (1972), O Arco-íris Negro (1978), Atabaques (1983) e “Black Intentions” (2003) inédito no Brasil. Está finalizando “Malakê”, que deverá ser lançado em 2008. Colaborador dos Cadernos Negros desde 1980, o escritor faz parte dos Conselhos Editoriais do Jornal Multicampi da Revista do Cepaia, além de ser membro do Conselho da Your World, Organização Internacional de Educação e Assessor Técnico da Universidade Estadual da Bahia. Nascido no bairro de Nazaré, com origens no Recôncavo Baiano, Limeira concebe uma poesia na qual “percebemos uma sintonia com a poesia contestatória e palmarina de Solano Trindade”, segundo a Mestra em Teoria da Literatura, Zoraide Portela Silva. Nesta entrevista ao Salvador Negroamor, o autor baiano fala da sua vida, do seu trabalho e de questões ligadas à militância negra.




*



SNA – Você utiliza muito da sua biografia nos seus poemas. Quais as suas lembranças de sua infância?
JCL – Boa parte delas já foram publicadas. Tenho um poema chamado “Ecos”, em que faço uma viagem no tempo, pela antiga Salvador. Já “No Corredor da Lapinha” busquei registrar as figuras e as particularidades desse lugar que me marcou profundamente. Não posso falar em infância miserável (porque tem aquela coisa do chororô de ser pobre quando criança), já que tive uma vida muito tranqüila. Meu pai depois que passou a ser Prático [condutor de embarcações em portos], progrediu muito e já naquela época, em 1952, viajávamos de avião para o Rio de Janeiro, visitar os parentes. Não segui a profissão do meu pai porque acreditei que ser Engenheiro Mecânico fosse melhor e também havia uma preocupação muito grande de minha mãe em relação ao perigo da vida no mar. Além disso, havia toda aquele ranço discriminatório em relação aos trabalhadores do porto. Então, não nasci em berço de ouro mas não tive dificuldades.

SNA – Como se deu seu primeiro contato com a Literatura?
JCL – Eu queria ser Oficial da Marinha e já no Colégio Naval comecei escrevendo cartas, a pedido dos meus colegas, principalmente os veteranos, que queriam impressionar as namoradas. E a coisa foi virando meio que “Central do Brasil”, pois eles gostaram e logo todas as namoradas dos praças passaram a receber as tais cartas. Houve um caso de um colega que estava vivendo um romance tórrido com uma moça e quando eles brigaram certa feita, ele revelou: “olha, nenhuma daquelas cartas fui que escrevi, foi um calouro lá que eu mandei ler suas cartas e responder”. E ela respondeu: “Que pena, mas eu estava mesmo apaixonada era pelo texto” (risos). Então comecei a fazer parte da Associação Fênix Naval, na qual se reuniam os interessados por Literatura, fazíamos recitais para as normalistas, isso no Rio de Janeiro. Foi lá que conheci um dos grande escritores, pouquíssimo conhecido, o Luciano de Oliveira. Foi ele quem me disse que eu era poeta.

SNA – Você atua como escritor engajado desde os anos setenta. Que momentos da sua carreira foram os mais marcantes?
JCL - Houve um evento organizado por professores e pesquisadores da Universidade de Tulsa, em Oklahoma [Estados Unidos], em 2003, que particularmente foi muito importante para mim. Eu estava vaidosamente pesquisando sobre mim na internet e descobri que um certo Bruce Dean Wyllys havia escrito sobre o meu trabalho. Daí entramos em contato, estabelecemos uma amizade e ele me convido como escritor de Língua Portuguesa juntos com outros cinco autores. Dois de Língua Inglesa, dois de Espanhol e um de Francês. E foi muito engraçado ver que os intelectuais de países mais desenvolvidos costumam ler seus textos e publicações com uma certa isenção. E enquanto eu fazia a leitura com toda carga de emoção que um poeta negro brasileiro tem, diante de umas duas mil pessoas, o Wyllys ia fazendo a tradução para o inglês. Mas ficou uma coisa muito boa, porque ele fazia todo o gestual, encarnando o espírito da minha poesia e o mais interessante foi ver o contraste daquele homem branco de olhos azuis emocionado com as palavras que falavam sobre a negritude. E aí a platéia aplaudiu de pé, todo mundo festejou e minhas pernas começaram a tremer (risos). Nesse dia eu esgotei uma edição de um livro chamado “Black Intentions”, lançado nos Estados Unidos justamente para esse encontro e hoje ele está sendo usado nas aulas de português da Universidades de Maryland e da Universidade de Vanderbilt.

SNA – Mas você também pode ser considerado um autor de contramão quando se trata de figuras históricas...
JCL - Tenho um poema que desmistica antigos medalhões da História do Brasil como Domingos Jorge Velho, o bandeirante, que no meu entender, depois de estudado e revisado, deveria ser visto como assassino e não como herói. Um cara que voltou de uma de suas expedições exibindo três mil orelhas de negros e se vangloriando do seu “feito”.

SNA - Seu trabalho é mais reconhecido no exterior do que no Brasil?


JCL - Houve um momento em que na Alemanha conheciam mais o Limeira do que no Brasil. Em 1988, comemorando o centenário da Abolição, o governo brasileiro fez uma intensa propaganda lá fora quanto à questão da democracia racial vivida aqui. E uma ex-professora da Ufba, que na época morava na Alemanha, Ana Parente Cunha, publicou através de uma editora chamada Diá, um livro chamado “Schwarze Poesie” [poesia negra] no qual vários autores expressaram suas vivências e expectativas dentro de um país que não se dizia racista, o que ia na contramão da propaganda governamental. Vários trechos do livro foram encenados no teatro e como a Alemanha tem muitas redes estatais de televisão, depois eu recebi uma resenha de Ana me informando que esse material atingiu um público de mais de 20 milhões de pessoas. Nunca tive a menor expectativa de ter um público como esse no Brasil... por isso eu costumo dizer que sempre passo por momentos mágicos na minha vida e qual não foi minha surpresa quando um dia eu estava na Ufba, a convite da professora Doralice Alcoforado, quando me entregaram uma importância referente ao meu texto, que havia se transformado num disque-poema na Alemanha, onde as pessoas pagavam para ouvi-lo. Eu fiquei duplamente feliz: pelo respeito que eles têm pela cultura, pelos escritores e outra por ter sido escolhido para ser estudado por eles. Isso no Brasil seria impossível. Eu acho que a gente ainda não tem educação para a música, para a poesia, para uma série de expressões.

SNA - Existe uma Literatura Negra atuante no Brasil?
JCL - Existe sim e as pessoas costumam questionar se Literatura tem cor ou não. No meu entender, o que é produzido pelos afro-descendentes tem uma uma importância fundamental como uma literatura de resgate de nossas reais tradições, como um espaço de respeito e dignidade para o negro dentro da sociedade brasileira. Ela é necessária porque a Literatura sempre foi um reduto branco. Tudo que era produzido pelo negro era de segunda qualidade ou considerado folclore e não faziam parte dos “padrões literários”. Pois bem. Até os nossos grandes autores são caiados ou esmaecidos quando produzem algo maior. Vide os exemplos de Machado de Assis, o próprio Cruz e Sousa e o recém-descoberto Lima Barreto, um dos mais discriminados pelos intelectuais brasileiros. Contemporâneo de Machado, Lima era cáustico na crítica às relações sociais e inclusive falava na própria discriminação sofrida, quando foi impedido de colar grau na faculdade politécnica e quando passou por uma série de percalços pelo fato de ser negro. Apesar dele ter uma obra tão pujante quanto à do nosso querido Machado, nunca foi adotado como cânone pela Academia e só foi redescoberto e valorizado muito recentemente. Existem outros, como Paula Brito e Solano Trindade que não apareciam nos compêndios literários. O Brasil ainda tem muita resistência para aceitar o negro além do sambista, do jogador de futebol ou que ele é muito bom de rebolado. Eu acho que tínhamos de pôr mais luz na obra de autores contemporâneos, que terminam até desistindo do fazer literário porque não têm um reconhecimento. E muitos autores capazes estão se perdendo pelo caminho. O problema é que a nossa Literatura toca em questões dolorosas e as pessoas preferem que se omita a realidade de um país que não é democrático nem é racialmente justo. É uma Literatura de denúncia, que se torna um instrumento de luta quando pega um garoto do hip-hop ou grafifeiro e dá informações para ele.

SNA - E qual o panorama da Literatura Negra na Bahia atualmente?
JCL - Quem deu maior visibilidade ao nosso trabalho nos últimos trinta anos foram os Cadernos Negros, que reúnem escritores de todo o país, que bancam suas próprias publicações. Cada vez que sou publicado neles, por exemplo, eu invisto cerca de 300, 400 reais e isso nos dá uma total liberdade de expressão, sem ficarmos sob a tutela de uma editora. Os textos publicados nos Cadernos são analisados por um Conselho Editorial que prima pela qualidade dos trabalhos. Os materiais panfletários não são aceitos, pois para isso existem os autores panfletários, que divergem da nossa proposta. A nossa literatura expõe certos pensamentos e certas vivências que a sociedade distante da nossa cultura já não pode mais deixar de experimentar, de perceber um outro país dentro do Brasil, que mesmo sem acesso a condições mínimas de educação, dignidade e sobrevivência continua construindo e levando para o mundo uma alegria, uma felicidade desconhecida do próprio Brasil. Aqui temos atualmente autores do porte de Jonathas Conceição da Silva, Osvaldo de Camargo, Landê Onawale, Sílvio Roberto. Temos ainda Hamilton Borges, dono de uma literatura de “pegada” e Nelson Gonçalves Maca, professor da Universidade Católica de Salvador e que mostra a literatura produzida pelos afrodescendentes dentro da Academia. As mulheres negras também estão produzindo, como Nivalda Costa e Aline França, autora conhecida na Bélgica com a obra “A Mulher de Aleduma”.

SNA - Você acredita que o ambiente acadêmico seja mais propício à produção literária?
JCL – Tenho tido uma boa relação com a Academia, mas não acredito nisso. Ainda existe a questão dos cânones, a questão dos moldes mais formais. A aceitação e o reconhecimento da produção negra é muito maior em guetos literários, por onde circulam os autores e os leitores. Eu já tive a honra de chegar em alguns lugares e perguntar se conheciam algum poema meu e a platéia reagir positivamente.

SNA – Quem são os autores de maior influência na sua obra?
JCL - Além de Cruz e Sousa e Luís Gama, um poeta e contista contemporâneo chamado Cuti, dono de uma extrema qualidade no verso e ao mesmo tempo em que tem uma técnica apurada. Gosto muito do texto de José Carlos Capinam e do meu grande amigo Ildásio Tavares. Também não dá para fugir dos clássicos, como Baudelaire... para construir as flores do bem tive que passar pelas flores do mal...(risos).

SNA – Onde é possível encontrar seus livros?
JCL – Não sei se felizmente ou infelizmente, mas estão todos esgotados (risos). O último foi lançado nos Estados Unidos, mas em alguns sebos talvez seja possível achar algum deles. Soube que num site de um sebo chamado Traça Virtual existem exemplares de “Atabaques”.

SNA – E a questão da sua religiosidade, qual a sua relação com o Candomblé?
JCL - Eu sou Ogã Tanundê do Terreiro Rumpaime Aiono Ontoloji, que fica no Alto da Levada, em Cachoeira. Em Jeje “Tanundê” significa uma espécie de relações públicas do terreiro. A Nação Jeje talvez esteja ameaçada de extinção porque todo ciclo de festas, todo ciclo de iniciação é muito longo, muito pouco divulgado e a maioria das pessoas só são iniciadas quando se aposentam. As obrigações e a iniciação exigem seis meses dentro e seis meses fora do Terreiro, por isso estamos pensando numa reformulação nesses procedimentos. Precisamos dar uma atividade maior e preservar uma das nações mais ricas e também complicadas para se ter acesso.

Foto: Alex Rubinélio